Interpretação de texto: A Doida – 8º ou 9º ano

Interpretação de texto: A Doida - 8º ou 9º ano

    Atividade de interpretação de texto, proposta a estudantes do oitavo ou nono ano do ensino fundamental, com questões baseadas no texto “A Doida”.

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ESCOLA:                                                          DATA:

PROF:                                                              TURMA:

NOME:     

A DOIDA

    A doida habitava um chalé no centro do jardim maltratado. E a rua descia para o córrego, onde os meninos costumavam banhar-se. (…) Os três garotos desceram manhã cedo, para o banho e a pega de passarinho. Só com essa intenção. Mas era bom passar pela casa da doida e provocá-la. As mães diziam o contrário: que era horroroso, poucos pecados seriam maiores. Dos doidos devemos ter piedade, porque eles não gozam dos benefícios com que nós, os sãos, fomos aquinhoados.(…) Como era mesmo a cara da doida, poucos poderiam dizê-lo. (…) Sabia-se confusamente que a doida tinha sido moça igual às outras no seu tempo remoto (contava mais de 60 anos, e loucura e idade, juntas, lhe lavravam o corpo). Corria, com variantes, a história de que fora noiva de um fazendeiro, e o casamento, uma festa estrondosa; mas na própria noite de núpcias o homem a repudiara, Deus sabe por que razão. O marido ergueu-se terrível e empurrou-a, no calor do bate-boca; ela rolou escada abaixo, foi quebrando ossos, arrebentando-se. Os dois nunca mais se viram. Já outros contavam que o pai, não o marido, a expulsara, e esclareciam que certa manhã o velho sentira um amargo diferente no café, ele que tinha dinheiro grosso e estava custando a morrer(…)De qualquer modo, as pessoas grandes não contavam a história direito, e os meninos deformavam o conto. Repudiada por todos, ela se fechou  naquele chalé do caminho do córrego, e acabou perdendo o juízo. Perdera antes todas as relações. Ninguém tinha ânimo de visitá-la.(…) Às vezes uma preta velha arriscava-se a entrar, com seu cachimbo e sua paciência educada no cativeiro, e lá ficava dois ou três meses, cozinhando. Por fim a doida enxotava-a. E, afinal, empregada nenhuma queria servi-la. Ir viver com a doida, pedir a bênção à doida, jantar em casa da doida, passou a ser, na cidade, expressões de castigo e símbolos de irrisão. (…) E assim, gerações sucessivas de moleques passavam pela porta, fixavam cuidadosamente a vidraça e lascavam uma pedra. A princípio, como justa penalidade. Depois, por prazer. Pessoas sensíveis lamentavam o fato, sugeriam que se desse um jeito para internar a doida. Mas como? O hospício era longe, os parentes não se interessavam. E daí — explicava-se ao forasteiro que porventura estranhasse a situação — toda cidade tem seus doidos; quase que toda família os tem.(…) Os meninos pegaram calhaus lisos, de ferro, tomaram posição. Cada um jogaria por sua vez, com intervalos para observar o resultado. O chefe reservou-se um objetivo ambicioso: a chaminé.(…) A doida, porém, parecia não ter percebido a agressão, a casa não reagia. Aí o terceiro do grupo, em seus 11 anos, sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. (…)O garoto empurrou o portão: abriu-se. (..) Era o primeiro a penetrar no jardim(…) Recuou um pouco e olhou para a rua: os companheiros tinham sumido. Ou estavam mesmo com muita pressa, ou queriam ver até aonde iria a coragem dele, sozinho em casa da doida. Tomar café com a doida. Jantar em casa da doida. Mas estaria a doida? (…)O menino foi abrindo caminho entre pernas e braços de móveis, contorna aqui, esbarra mais adiante. O quarto era pequeno e cabia tanta coisa. Atrás da massa do piano, encurralada a um canto, estava a cama. E nela, busto soerguido, a doida esticava o rosto para  a frente, na investigação do rumor insólito. Não adiantava ao menino querer fugir ou esconder-se. E ele estava determinado a conhecer tudo daquela casa. De resto, a doida não deu nenhum sinal de guerra. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos, como para protegê-los de uma pedrada. Ele encarava-a, com interesse.(…) E que pequenininha! O corpo sob a coberta formava uma elevação minúscula. Miúda, escura, desse sujo que o tempo deposita na pele, manchando-a. E parecia ter medo.(…)  A criança sorriu, de desaponto, sem saber o que fizesse. Então a doida ergueu-se um pouco mais, firmando-se nos cotovelos. A boca remexeu, deixou passar um som vago e tímido. Como a criança não se movesse, o som indistinto se esboçou outra vez. Ele teve a impressão de que não era xingamento, parecia antes um chamado. Sentiu-se atraído para a doida, e todo desejo de maltratá-la se dissipou. Era um apelo, sim, e os dedos, movendo-se canhestramente, o confirmavam.(…) Talvez pedisse água. A moringa estava no criado — mudo, entre vidros e papéis. Ele encheu o copo pela metade, estendeu-o. A doida parecia aprovar com a cabeça, e suas mãos queriam segurar sozinhas, mas foi preciso que o menino a ajudasse a beber. Fazia tudo naturalmente, e nem se lembrava mais por que entrara ali, nem conservava qualquer espécie de aversão pela doida. A própria ideia de doida desaparecera. Havia no quarto uma velha com sede, e que talvez estivesse morrendo.Nunca vira ninguém morrer, os pais o afastavam se havia em casa um agonizante. Mas deve ser assim que as pessoas morrem. Um sentimento de responsabilidade apoderou-se dele. Desajeitadamente, procurou fazer com que a cabeça repousasse sobre o travesseiro. Os músculos rígidos da mulher não o ajudavam. Teve que abraçar-lhe os ombros – com repugnância — e conseguiu, afinal, deitá-la em posição suave. (…) Água não podia ser, talvez remédio…(…) Seria caso talvez de chamar alguém.( …) E tinha medo de que ela morresse em completo abandono, como ninguém no mundo deve morrer.(…)Foi tropeçando nos móveis, arrastou com esforço o pesado armário da janela, desembaraçou a cortina, e a luz invadiu o depósito onde a mulher morria. Com o ar fino veio uma decisão. Não deixaria a mulher para chamar ninguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la, a não ser sentar-se à beira da cama, pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer.

Carlos Drummond de Andrade In: Contos de Aprendiz. Adaptado.

 

Questões

1) Descreva qual era o hábito dos moleques da cidade em relação A Doida?

 

2) Quais são as duas versões contadas pela população em relação a vida da Doida?

 

3) O que aconteceu com A Doida após ela se fechar no chalé, localizado no caminho do córrego?

 

4) Quais eram as expressões de castigo ou zombaria utilizadas pelas pessoas da cidade onde A Doida morava?

 

5) Porque as pessoas da cidade ou familiares não internavam A Doida em um local apropriado?

 

6) Qual era a justificativa utilizada pela população da cidade quando chegava um forasteiro que por ventura estranhasse a situação? Você concorda com essas afirmações? Justifique.

 

7) Após a tentativa de jogar pedras na chaminé não ter dado nenhum resultado o que aconteceu com os meninos? Relate os fatos:

 

8) Após invadir a casa da Doida relate o que aconteceu com o menino e a  dona da casa? Faça uma breve descrição das atitudes dele e da mulher a partir desse momento?

 

9) Após contato com a mulher relate qual sentimento apoderou-se do menino? Em seguida, relate o desfecho do conto.

 

10) Relate o que você sentiu ao ler esse conto

 

 

 

Por Rosiane Fernandes Silva – Graduada em Letras

As respostas estão no link acima do cabeçalho.







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